Faculdade de Medicina “ame-a ou deixe-a!” um estudo interseccional sobre o trote universitário

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Passados nove anos da nossa histórica cruzada contra o trote na FMABC, experiência publicada no livro Bulindo com a Universidade – um estudo sobre o trote na Medicina (2012), apresentamos esta pesquisa que aprofundou o conhecimento dos fatores sociais que influenciam as atitudes e valores sobre as formas de praticar o trote universitário. O discurso oficial é de que o trote é algo do passado e que hoje vivemos num coletivo composto por pessoas pacíficas, mas vimos que o ‘currículo oculto’ continua a difundir o seu mecanismo de construção de redes de poder. Em 2018, através da organização de dois grupos focais com a participação de 26 alunos (as) do 1º ao 4 º ano do curso de Medicina, jogamos luz na caracterização deste cenário, analisando-o sob a perspectiva interseccional de gênero, raça e classe. Retratamos a diversidade das experiências nas suas especificidades e como método, tornamos visível o escondido. É perceptível que avançamos em diversos aspectos ao quebrar o silêncio do trote desde 2010, principalmente no que diz respeito às violências físicas, mas as relações abusivas de poder e a violência simbólica também aqui são retratadas. Vimos as desigualdades de oportunidades pautadas nas diferenças de classe e a subordinação de gênero e raça perpetradas por estudantes que possuem o domínio do tempo, das atitudes e das vantagens de uma relação de dominação. Em nome de uma tradição e do amor pela faculdade, ex-alunos (as) participam da manutenção da cultura trotista. Neste monopólio, situações de assédio moral e sexual também são reveladas. Um espaço político e hierarquizado onde as diversas manifestações do preconceito normalizam a violência e a segregação. A naturalização deste sistema disciplinar e de dominação impõe a ideia de que sempre foi assim e de que, portanto, deverá continuar sendo. Compactuando ou não deste mecanismo, muitos acreditam que não há possibilidade de mudança, e este é um grande desafio: quebrar o ciclo desta dinâmica regulada por um padrão institucionalizado de valor cultural herdado do nosso passado escravocrata. Tudo isto num contexto que busca reprimir a memória e a história para a compreensão das desigualdades e injustiças. A circunstância requer atenção dobrada aos mecanismos de seleção e exclusão, como este do trote, que se configura como mais um instrumento que demarca a norma de poder racista e patriarcal. Aqueles (as) que se submetem a este sistema, consciente ou inconscientemente, alimentam e mantém vivo o ‘ovo da serpente’. A mudança depende da ampliação do acesso dos indivíduos à informação e aos recursos para se protegerem, mas principalmente de transformações sociais profundas relacionadas ao nosso contexto histórico, cultural e político brasileiro. A transformação depende da convergência de vários aspectos, dentre eles, da aplicação justa das leis, da reestruturação da política, da distribuição de renda, do ensino de gênero, raça/etnia nas escolas, e principalmente, da conscientização, da participação e do fortalecimento daquele e daquela que sente os efeitos da opressão e que compreende mais do que ninguém a necessidade da sua libertação.

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